Siemensstadt: A linha fantasma que cruza Berlim

Eu tinha uma certa "dívida" com Berlim. Muitos amigos que moram lá e outros tantos que já haviam visitado a cidade sempre me disseram, com muita certeza, o quanto eu gostaria dela. Eu estava há uma semana rodando pelo interior da Alemanha e, depois de 15 horas de trem - divididas em dois dias -, finalmente eu estava lá pra tentar ficar em dia com a capital alemã.

Das infinitas - mesmo! - atividades que Berlim pode te oferecer, eu escolhi algumas menos conhecidas. Antes de ser a premissa principal aqui do Viagem Criativa, essa história de fugir dos lances mais turísticos é uma maneira pessoal que escolhi ao viajar. Em termos práticos, isso significa que durante meus dias lá, eu não passei nenhuma vez pela Alexanderplatz, Portão de Brandemburgo, Memorial Judeu ou o Parlamento Alemão.

Como eu já havia falado no post sobre Freiburg, essa é uma visão muito particular e não tenho a pretensão de dizer pra você fazer isso ou aquilo. Só de (simplesmente) mostrar que existe algo além de todos esses lugares famosos, já fico muito feliz.

Se você acompanha o blog há algum tempo, deve se lembrar do Felipe Tofani, já que contamos duas histórias dele alguns meses atrás. A primeira foi a invasão de um antigo prédio soviético em Berlim e a segunda a fantástica caminhada que ele fez da capital alemã até a fronteira com a Polônia. Só que ele não se contentou só com isso e resolveu criar o Fotostrasse, um projeto em conjunto a Marcela Faé. O projeto tem como principal objetivo explorar lugares desconhecidos de Berlim. Não apenas locais abandonados ou históricos, mas também atrações escondidas e que poderiam estar no topo das listas de lugares mais procurados da cidade.

O Fotostrasse acontece quase todos os meses. Se você mora ou está de passagem por Berlim, eu recomendo fortemente que os siga no Facebook pra sabe quando vai acontecer a próxima edição.

Na semana em que cheguei em Berlim, eles organizaram a sétima edição do projeto. Pra minha sorte, o lugar a ser explorado era a S-Bahnhof Siemensstadt, uma antiga linha de metrô que foi desativada em 1980 e está lá, abandonada bem no meio da cidade há quase 35 anos. Como eu sou fascinado por lugares abandonados, não poderia ter ficado mais feliz com a escolha deles.

Apesar da imensa quantidade de locais abandonados em Berlim por causa da Segunda Guerra Mundial, esse não é o caso da S-Bahnhof Siemensstadt. Antes da exploração em si, um pouquinho de história (retirado lá do site do Fotostrasse):

Lá no começo do século XX, Berlim era a maior cidade e também tinha o maior número de indústrias da Alemanha. E uma das maiores empresas naquela época era a Siemens. Mais de 90 mil pessoas trabalhavam no complexo da empresa diariamente e não havia muitas opções de transporte público pra toda essa gente se deslocar até lá.

Depois de algum tempo, um sujeito chamado Carl Friedrich Von Siemens veio com a solução. Como ele era, ao mesmo tempo, presidente da Siemens e do Conselho Executivo da Deustche Bahn (a empresa que comanda os trens na Alemanha), ele ordenou que fosse construída uma linha de trem para os trabalhadores da empresa chegarem até o seu prédio principal.

E assim, em 1929, a S-Bahnhof Siemensstadt foi inaugurada e passou a ser amplamente utilizada pelos funcionários da Siemens para irem ao trabalho no dia a dia.

Por muitos anos tudo se manteve na tranquilidade. Até que no final dos anos 70, a Siemens resolveu mudar seu principal escritório para Munique, no sul do país. A partir daí, a linha que transportava milhares de pessoas, passou a ter o incrível movimento de 20 pessoas por dia.

Obviamente, não havia mais motivo para ela continuar existindo e, em 1980, a S-Bahnhof Siemensstadt foi finalmente desativada. Boa parte das estruturas da linha foi retirada para ser utilizada em outras linhas da cidade, mas o pedaço mais importante dela permaneceu intacto: a torre de controle e as duas estações mais próximas do prédio da Siemens, Siemensstadt e Wern­er­werke.

Essa linha é completamente fechada ao público. Ela é toda cercada e não existe possibilidade de visitação. Invadir a S-Bahnhof Siemensstadt para descobrir o que ainda existe lá dentro foi a aventura que o Fotostrasse propôs aos seus seguidores. 15 deles toparam a ideia.

O ponto de encontro foi a estação Rohrdamm, que hoje é a mais próxima da linha abandonada. Essa área da cidade é muito bonita e bem tranquila. Ela pode ser perfeita pra sua hospedagem caso você não faça questão de ficar perto das áreas mais agitadas da capital alemã. E a melhor maneira de você encontrar hotéis baratos em Berlim ou hotéis baratos na Alemanha, é usando o Detecta Hotel. A ferramenta de busca e comparação deles é imbatível, e os caras ainda têm um app pra iPhone e Android que facilita ainda mais a vida dos viajantes.

O complexo da Siemens continua sendo imenso em Berlim, a ponto de ser comparado a um bairro, de tão grande. Bem ao lado da Rohrdamm, existe uma praça construída pela empresa em homenagem aos funcionários que morreram durante a Primeira Guerra Mundial. Ao redor dessa praça, estão encravados os nomes de absolutamente TODOS esses funcionários. Só por aí é possível imaginar o tanto de gente que trabalhava ali.

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Assim que todos os confirmados apareceram, começamos a nossa caminhada até a S-Bahnhof Siemensstadt propriamente dita. Depois de 15 minutos, chegamos até o que seria uma das entradas da estação. Acontece que como você bem leu ali em cima, a linha está desativada há 34 anos.

Não é preciso pensar muito pra deduzir que todo esse passeio é proibido e poderia trazer alguns problemas com a polícia caso alguém nos pegasse lá dentro. Não era como se estivéssemos fazendo algo de extrema gravidade, mas ainda assim, era proibido.

Depois de chegarmos até a suposta entrada, tivemos que encontrar uma maneira de entrar, já que as cercas estavam por toda a parte. Em poucos minutos, o Felipe achou um buraco em uma delas e começamos, um a um, a entrar na misteriosa e abandonada S-Bahnhof Siemensstadt.

Lá dentro, tínhamos dois caminhos a seguir. Pela esquerda, chegaríamos até a torre de controle. Já indo pela direita, estavam as duas estações que sobraram. Evidentemente, nós iríamos pros dois lados, a questão era apenas decidir qual dos dois seguir primeiro.

Numa rápida votação, escolhemos a torre como o destino inicial. Independente do lado escolhido, o caminho seria bem difícil. A visibilidade era bem pequena à nossa frente, por causa do mato alto, que chegava a cobrir os velhos trilhos, e pelas árvores caídas. Pedras também faziam a caminhada ficar mais difícil e relativamente perigosa. Aliás, ser pego pela polícia era o menor dos problemas ali. O principal receio de todos nós era uma possível torção de pé ou até mesmo cortes causados pela vegetação. Foi preciso muita atenção pra evitar machucados.

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Depois de alguns minutos caminhando entre uma imensa gama de perigos naturais e incontáveis possibilidades de se contrair tétano berlinense, conseguimos avistar a tal torre de controle.

Avistar é um modo generoso de se dizer, já que ela estava completamente oculta pelas árvores. Mas pelo que deu pra ver, parecia ser um prédio de 3 ou 4 andares e que obviamente, servia para gerenciar o vaivém dos trens que passavam por aquela linha.

Na parte debaixo, muita sujeira, entulho e paredes grafitadas por artistas que se revezaram por lá ao longo desses 30 e tantos anos de inatividade.

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Estávamos há relativamente pouco tempo dentro da S-Bahnhof Siemensstadt e um dos nossos objetivos, que era chegar até a torre de controle, já havia sido atingido. Isso me surpreendeu de certa forma, pois achei que demoraríamos mais tempo pra isso.

Mas o "objetivo atingido" não era bem assim. Apesar das portas trancadas, por que não uma tentativa de entrar na torre e descobrir o que está lá dentro? Evidentemente, assim que a primeira pessoa deu a ideia, todo mundo ali tratou de concordar e saímos rodeando o prédio na tentativa de encontrar uma maneira de entrar.

Não demorou muito até que uma janela sorrisse pra todos nós. Toda quebrada e cheia de cacos de vidro, mas ainda assim, uma janela que nos permitiria entrar na torre.

S-Bahnhof Siemensstadt

Novamente, assim como na cerca da entrada, lá fomos nós, um a um pra dentro da torre. Pra nossa sorte, boa parte do grupo tinha uma lanterna ou um telefone com essa função pra auxiliar na subida das escadas, que estavam - claro! - completamente escuras.

Como eu fui o primeiro a entrar lá, tive um sentimento meio "cena final da Bruxa de Blair" ao andar por ali antes de todo mundo. Da mesma forma que o lado de fora, as paredes lá dentro estavam pichadas, grafitadas e o chão coberto de sujeira e entulhos.

Várias salas com as portas arrombadas estavam completamente vazias. Acredito que tenham sido vítimas de saques durante todo esse tempo.

Quase todas as janelas estavam lacradas com tapumes de madeira, algumas poucas foram arrebentadas. Ainda assim, uma ou outra coisa da época de funcionamento da linha ainda podia ser visto por lá. Placas de sinalização, material de escritório, mobília e coisas do tipo.

O que mais me chamou a atenção lá dentro da torre de controle foi um mapa-mundi colado na parede da escada que dá acesso ao último andar. Achei interessante porque o mapa está em polonês, o que obviamente não faz muito sentido. Eu realmente gosto da ideia de ficar imaginando porque diabos um mapa polonês era usado por controladores do metrô de Berlim. E talvez eu nem queira saber a verdade, de repente não tem nada demais nessa história, mas prefiro acreditar que tem sim!

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Agora sim, podíamos dizer que a "missão torre de controle" estava cumprida. Quase uma hora lá dentro, olhando cada centímetro pra tentar resgatar alguma história perdida. E mesmo que não houvesse essa história, certamente havia várias na cabeça de cada um e isso é a parte mais legal, confrontar as expectativas com a realidade.

Com todos fora da torre - aliás, o censo era feito periodicamente, seria uma tragédia perder alguém ali dentro - passamos a fazer o caminho de volta a entrada da linha. Isso porque, como falei mais no começo do texto, os caminhos para a torre e para as estações eram opostos. Então, para que conseguíssemos chegar até as plataformas de embarque, seria necessário passar novamente por onde entramos. Nessa hora aconteceu a primeira deserção. Um amigo italiano preferiu ir embora no meio do caminho, já que tinha um voo pra pegar mais tarde e ficou preocupado com o tempo. Uma pena, mas tudo bem.

Essa caminhada pra primeira estação - Siemensstadt - foi igualmente tortuosa. Muitas pedras, mato alto e galhos "loucos" pra causar ferimentos na nossa turma eram constantes no nosso trajeto.

A chegada à estação levou uns bons 30 minutos, mas que pareceram horas por conta dessas dificuldades todas que aquele caminho proporcionava.

Confesso que não liguei pra essas chatices em nenhum momento, menos ainda quando conseguimos avistar a Siemensstadt ali na nossa frente. O visual era incrível. É difícil imaginar como um negócio daquele tamanho pode ficar simplesmente abandonado por tanto tempo, sem que ninguém ao menos tente fazer algo lá.

Essa estação fica num viaduto, que passa bem acima de uma movimentada avenida de Berlim. Não é algo escondido ou secreto. É muito visível e mesmo assim está completamente à deriva. Sei lá o que você pensa disso, mas é muito fascinante pra mim.

A Siemensstadt estava, claro, completamente detonada. Tudo quebrado, aos pedaços e, assim como todo o resto, pichada e grafitada. Vários andaimes estavam numa das pontas da plataforma, provavelmente por causa do risco de queda do telhado. Isso significa que pelo menos um mínimo de manutenção aconteceu ali num passado recente. Só não sei por quem. Um visual legal demais, bem realçado pela tarde de sol que fazia naquele domingo.

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Como as saídas para a rua são totalmente lacradas, seria bem difícil que alguém lá debaixo conseguisse nos ver, o que nos deixou aliviados, já que poderíamos ter problemas se a polícia fosse avisada da nossa presença lá em cima.

Mais ou menos como na torre, ficamos ali por cerca de uma hora, fotografando e descobrindo pequenos detalhes da estação. Era hora de partir pra próxima etapa, a estação Wern­er­werke.

Essa era a estação final da linha e fica literalmente de frente para o gigante prédio da Siemens, que ainda existe e está funcionando em Berlim.

Mas antes de partir, aconteceu a segunda deserção. Uma das garotas alemãs quis ir embora por motivos que ninguém sabe até agora. Só que não havia como ir embora dali. E ela não queria voltar tudo sozinha pra sair pelo lugar onde havíamos entrado.

Ou seja, perdemos um tempo danado ali enquanto tentávamos encontrar uma saída pra ela, o que acabou acontecendo depois de uns minutos. Passou pela cabeça de todos deixá-la se virar sozinha, mas isso poderia trazer consequências pra todo mundo, então resolvemos ficar ali até que ela conseguisse ir embora.

Passado esse pequeno incômodo, seguimos na caminhada até a esperada Wern­er­werke. No caminho pra lá, encontramos muito, mas muito lixo. Latas de cerveja, pacotes de comida e algo que eu já esperava achar desde o começo: seringas e vestígios de uso de drogas.

Quando vi o matagal que estávamos entrando, lá no começo da exploração, já sabia que isso ia acontecer, e de fato me surpreendeu que tenha demorando tanto pra que os primeiros rastros junkies aparecessem. Mas como moro em São Paulo, não seria em Berlim que esse tipo de coisa iria me chocar.

Lá se foram vários minutos de caminhada com o mesmo cenário de antes: entulho, ferrugem, mato e pedras. Até que no horizonte, vimos algo diferente. Um imenso portão totalmente forrado de arame farpado.

Era o primeiro sinal de "proibido" que víamos desde que entramos pelo buraco na cerca. Algo nos dizia que se fôssemos pegos depois daquele portão, as coisas poderiam ser piores do que sermos pegos antes dele.

Numa rápida inspeção, descobrimos que o portão estava aberto e aparentemente nossa passagem pra Wern­er­werke estava livre.

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Do portão em diante, outro fator poderia nos complicar. Não havia mais ávores nas laterais dos trilhos. Em outras palavras, isso significava que não tínhamos mais a "proteção" dessas ávores. Toda a camuflagem que elas nos deram até ali não existia mais.

Com isso, tomamos um cuidado maior, de tentar andar o mais ao centro dos trilhos que pudéssemos, pra evitar que alguém da rua nos visse. Mesmo com essa precaução, era inevitável que o grupo fosse tomado pela tensão a cada sirene de polícia que passasse por ali.

Mesmo eu achando que polícia teria mais o que fazer além de pegar meia dúzia de pessoas fotografando uma velha estação, o pessoal de Berlim não costuma ter um bom relacionamento com os tiras, por isso da tensão deles.

O interessante é que a ausência de vegetação pesada fez dessa última caminhada a mais fácil de todas. Além das pedras no chão, nada mais dificultava nossos passos. Apesar do cansaço, foi um alívio não ter aquele matagal todo pinicando nossos braços.

Poucos minutos e enfim, a estação Wern­er­werke estava bem ali. O primeiro contato visual com ela chega a ser divertido, já que ela fica de frente pro gigantesco prédio da Siemens. O bonito letreiro da marca em cima do prédio contrasta com a degradação da plataforma. É curioso imaginar o quão bonita deve ter sido aquela estação e quanta gente circulava por ali diariamente.

Hoje é um grande amontoado de... nada!

Essa estação em particular me pareceu bem mais destruída do que a Siemensstadt, mas não consigo nem imaginar o motivo disso.

De tudo que vi ali, uma pia com uma torneira (!!) com inscrições em cirílico (!!!!!) foi o que mais me prendeu. Uma pia no meio de uma plataforma de trem, não faz o menor sentido! E por isso é legal demais. Uma pena que ninguém ali falava russo pra decifrar o que aquela parede nos dizia.

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

S-Bahnhof Siemensstadt

Na hora de ir embora, apesar do cansaço, dava pra ver todos contentes pelo dia divertido que passamos dentro da S-Bahnhof Siemensstadt.

Mas mais do que isso, todos estavam bem mais relaxados e sem medo de ser pegos. Tanto que o pessoal já estava até andando perto das grades da linha, não se importando com um possível pedestre dedo-duro ali na rua.

S-Bahnhof Siemensstadt

E antes de ir embora, deu até pra tirar uma selfie com a câmera do Felipe!

Valeu Fotostrasse! Repetindo o que falei lá em cima, se você for passar por Berlim, entre em contato com eles e veja o que está sendo programado na cidade!

S-Bahnhof Siemensstadt

O Viagem Criativa viajou a Berlim com o apoio do Detecta Hotel

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comentários

1 Response

  1. uma janelinha se mostrou, iuhu. demais, que passeio gostoso!
  2. […] good thing is that our friend André, that runs the awesome Viagem Criativa and wrote an awesome post about his experience with us, decided to lead and be the first one inside the old building. There, we found something close to […]

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